Os sonhos da sua criança interior importam
O primeiro computador da família chegou em casa quando eu tinha 7 anos. Aqueles brancos, robustos e que cobríamos com capas plásticas para proteger da poeira. Meu pai dizia que “o computador não era brinquedo”, mas, como toda criança curiosa que cresceu em um mundo dominado por eletrônicos, ligava o computador e repetia o mesmo caminho: Iniciar → Programas → Acessórios → Jogos.
Campo Minado, Paciência, Copas e até o “complicado” Free Cell. Passei boas horas jogando cada um deles, mesmo sem entender as regras. Quando não estava jogando, estava desenhando no Paint, inventando histórias ou só criando arte abstrata. Porém, em algum momento, jogar os mesmos jogos por muito tempo me causariam uma certa exaustão. Eu queria jogos novos.
Até que, em uma manhã de sábado ensolarada, meu pai chama minha irmã e eu no escritório e anuncia que havia instalado 40 jogos novos no computador. Um gesto de alegria para a família, mas que, para mim, foi um divisor de águas.
(Curiosamente, por muito tempo, acreditava que o CD vinha de alguma edição da revista CD Expert. Durante a redação deste artigo, descobri que foram desenvolvidos pela Expert Software, outra empresa completamente diferente. Vivendo e aprendendo…)
A maioria desses jogos eram puzzles ou estratégia. Desafios que não demandavam reflexos ou respostas rápidas, ao mesmo tempo em que não eram exigentes com o processamento do nosso humilde computador. Foram dias e dias jogando esses jogos em uma época na qual nem sabia o que era internet.
Artistas e Engenheiros nascem quando, diante de uma obra que o encanta, eles se perguntam: “como eu faço isso?”. Essa coletânea foi a centelha para que eu decidisse “fazer os meus próprios jogos”.
Mas por onde eu começo?
A primeira coisa que minha mente de criança fez foi abrir o Paint e desenhar um boneco. Afinal, um jogo nada mais era do que “objetos na tela que se movem”, certo? No final das contas, a brincadeira acabou sendo uma experiência completamente lúdica, contando apenas com a imaginação, sem uma linha de código sequer ser escrita.
Anos depois, em um novo PC, tentando dar um passo além, meu pai me deu uma revista da CD Expert (agora sim) com o título “Faça seu Game”. Não lembro muito bem qual era a versão ou se era uma demo, mas ele vinha com um programa para criar animações e jogos em flash, que estavam em alta na época.
Entretanto, se, antes, eu estava limitado pelos “recursos” do Paint, agora eu estava sobrecarregado pela complexidade do Macromedia Flash MX. Fiquei alguns minutos olhando a interface sem entender nada e depois fechei o programa, para nunca mais abrir de novo. Dali em diante, quis apenas jogar os jogos em vez de tentar criar o meu próprio.
Quando a disposição e o conhecimento convergem
Os anos passaram e a vida adulta havia chegado. Fiz escola técnica, faculdade e estava no meio de um mestrado e do meu primeiro emprego formal. Foi tempo o suficiente para o meu interesse por jogos eletrônicos ir embora e voltar. Por fim, me vi diante do maior incidente do primeiro quarto do Século XXI: a Pandemia da COVID-19.
Ela nos deixou enclausurados em nossos quartos. Minhas opções de lazer se resumiam a jogos, streaming e videochamadas. Inclusive, cheguei a baixar um programa de desenho para fazer pixel-art. Foi aí que a centelha voltou, mas com um diferencial: experiência.
Eu entendia o mínimo de pixel-art e mexia bastante com programação seja por estudos, seja por trabalho. As plataformas de cursos online também estavam em alta. Então, investi alguns reais no curso oficial da engine do momento: Unity.
Entre vida acadêmica, profissional e pessoal, muita coisa aconteceu. Porém, entre tempos livres e hiatos, finalmente tirei um projeto do papel. E, assim, nascia meu primeiro jogo: Morpheus Racer. Uma brincadeira com os nossos felinos e uma colaboração artística com nossa digníssima Yuuko Kitsune.
Aos interessados, o jogo está disponível para Windows no meu itch.io, junto com outros projetos!
Conclusão
Levou duas décadas, mas o sonho infantil de fazer um jogo finalmente havia se tornado realidade. A sua idade não define o tamanho dos seus sonhos. Quando criança, nos falta a noção da complexidade deles. Porém, em algum momento da vida, essa noção e os conhecimentos chegam para nós, e muitos desses sonhos se tornam alcançáveis.
O ser humano envelhece. Os sonhos não. Eles continuam sendo uma parte da gente. Uma parte da qual não precisamos ter vergonha de investir.
A vida é sobre a jornada, e não o destino final. É aquilo que sonhamos, planejamos e realizamos.
What do you want a meaning for? Life is a desire, not a meaning.
Charles Chaplin
Extra
Em algum momento, ainda na infância, eu perdi meus “40 Jogos” por causa de um vírus no computador. Ele teve que ser formatado e meu pai não tinha mais o CD, que era emprestado. Triste dia…
Porém, recentemente, graças ao trabalho, aprendi a configurar máquinas virtuais. Adivinha qual foi a primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa?
Hora de me vingar daqueles adversários injustos! Até a próxima o/











