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The Legend of Zelda e o apego emocional que molda nossa personalidade

The Legend of Zelda é uma franquia de jogos eletrônicos com décadas de história para contar. De premiações em cerimônias a notas 10/10 de editoriais renomados, pelo menos três de seus lançamentos poderiam concorrer ao título de “Melhor Jogo de Todos os Tempos”. Porém, é difícil encontrar unanimidade entre os fãs sobre qual Zelda é o melhor dentre todos.

O “jogo favorito” de um jogador pode ser definido por uma combinação ponderada de diversos fatores: trilha sonora, jogabilidade, gráficos, enredo, dificuldade, etc. Resumidamente, o que torna um jogo o seu favorito é a experiência que ele teve ao jogá-lo. Porém, além dela, há dois fatores que também influenciam nessa escolha, mesmo que de forma implícita: o contexto histórico pessoal.

Quando se discute o Zelda favorito de alguém, geralmente há duas vertentes de jogadores: os adoradores dos jogos 3D – encabeçados por Ocarina of Time (Nintendo 64) – e os dos jogos 2D – encabeçados por A Link to the Past (Super Nintendo).

Ocarina of Time
A Link to the Past

Eu sou da vertente dos jogos 2D. A Link to the Past foi o primeiro Zelda que joguei e ele está no meu Top 5 pessoal. Entretanto, gostaria de apresentar outros dois lançamentos 2D tão bons e memoráveis quanto, mas que acabaram não tendo a mesma popularidade. Então, vamos conhecê-los!

Oracle of Seasons & Ages

Em 2001, já no fim do ciclo do Game Boy Color, a Nintendo lançou não somente um, mas dois jogos simultâneos: Oracle of Seasons e Oracle of Ages.

Em Oracle of Seasons, Link precisa salvar a terra de Holodrum e a dançarina Din das garras do vilão Onox. Para enfrentá-lo, nosso herói precisará manipular as estações do ano para restaurar o equilíbrio rompido das forças da natureza.

Enquanto isso, em Oracle of Ages, Link precisa salvar a terra de Labrynna e a cantora Nayru das garras da vilã Veran. Aqui, nosso herói precisa viajar entre distintas eras para restaurar a ordem temporal que foi perturbada.

Oracle of Seasons Artwork
Oracle of Ages Artwork

O verdadeiro atrativo dos dois jogos é que, mesmo sendo experiências diferentes, ambos estão conectados. Assim que você finaliza um deles, você recebe um código para ser inserido no próximo. Ao começar uma partida nova com esse código, você dá sequência a história, revelando o “verdadeiro final” de toda a trama, além da possibilidade de desbloquear novos itens e equipamentos aprimorados.

Em termos técnicos, Oracle of Seasons & Ages são excelentes jogos. Seus mundos são ricos e coloridos, aproveitando ao máximo a capacidade gráfica do portátil. Os desafios de cada masmorra são inteligentes. Suas trilhas sonoras, mesmo com a “limitação” de 8 bits, produziu músicas memoráveis que estão no repertório de grandes concertos e remixagens.

Porém, há o tempero especial que os tornam os meus favoritos, e a principal motivação deste artigo: o momento no qual eu os joguei.

Crianças Pequenas; Sonhos Gigantes

Assim como o de muitas crianças, um dos meus maiores sonhos de infância era ter um Game Boy, mas era um sonho caro. Foram longos anos perturbando os meus pais para ter um. Todavia, mesmo para uma família de classe média, não era um presente trivial de se dar. Contas precisavam ser pagas. Até que, no Natal de 2004, a oportunidade finalmente chegou de um jeito inesperado.

Eu era uma criança privilegiada, tenho que admitir. Recebia mesada dos meus pais como recompensa pelas boas notas na escola. Mesmo assim, decidi assumir minha primeira “grande responsabilidade”: juntar meticulosamente cada trocado que eu ganhasse até finalmente ter eu mesmo ter condições de comprar um.

Um colega de trabalho da minha mãe havia comprado um Game Boy Advance. Porém, por ironia do destino, um parente dele havia acabado de voltar dos Estados Unidos e trouxe um Game Boy Advance SP para ele de presente de Natal. Sabendo que eu estava juntando dinheiro, veio a oportunidade: minha mãe convenceu o colega dela a vender o GBA que ele havia comprado para mim, recuperando o investimento que ele fez e fazendo uma criança feliz.

Negócio fechado! O tão sonhado Game Boy finalmente estava em minhas mãos. A primeira grande sensação de conquista e, talvez, uma das maiores lições de perseverança e educação financeira da minha vida.

Junto com ele, vieram três jogos. Um deles era justamente The Legend of Zelda: Oracle of Ages.

Game Boy Advance

Desbravando o Desconhecido Cibernético

Videogames ainda não eram tão populares no Brasil nos anos 2000. Game Boy, menos ainda. Um jogo de Zelda no Game Boy, muito menos. A falta de ter alguém para conversar sobre o jogo incomodava um pouco. Por outro lado, me dava uma “sensação de individualidade” por ter sido a única pessoa do meu ciclo de amigos de escola que havia jogado (até emprestar o cartucho para um deles e pegar emprestado o Pokémon Silver).

Enquanto isso, essa falta de alguém que já tivesse jogado e pudesse me dar dicas de como passar das partes mais confusas me obrigou a buscar ajuda em um novo lugar: a internet. No auge da minha inclusão digital infantil, abri o Internet Explorer, digitei “www.zelda.com.br” e torci para encontrar alguma dica ou guia (ou “detonado”, como eram chamados na época).

Por fim, foi essa busca que me abriu as portas para o mundo dos fansites, guias, dicas, notícias, rumores e tudo mais relacionados a meus jogos favoritos da época. Por isso, aproveito este espaço para deixar um SALVE ao pessoal do Hyrule Legends, o primeiro fansite brasileiro de Zelda que visitei; Oliva, apelido do autor dos guias que utilizei para finalizar os Oracle of Seasons & Ages, e aos gringos do Zophar Domain, RPG Dreamer e demais sites e fóruns estrangeiros dedicados a jogos de Aventura & RPG.

Hyrule Legends

Porém, a jornada não acabou aqui. Eventualmente, eu zerei o Oracle of Ages. Como já era sabido, essa era apenas metade de toda a história. Entretanto, eu não tinha o cartucho do Oracle of Seasons, tampouco conseguia achar o cartucho à venda nos camelôs da cidade. E, aqui, tivemos meu segundo evento canônico. Se o selo da internet já estava aberto, havia chegado a hora de abrir o próximo: o da emulação.

Colocando o Backlog em Dia

O primeiro computador da família foi um Windows 98, Pentium II e humildes 2GB de HD. Por ser um computador voltado para trabalho, meu pai não deixava instalar jogos nele, a não ser que coubessem em disquetes, com sua capacidade limitadíssima de 1.44MB, ou pudessem ser jogados a partir do CD, sem instalação. Já circulavam coletâneas de CDs contendo emuladores e roms de Super Nintendo e Mega Drive. Porém, por estarem dentro de um CD-ROM – isto é, apenas leitura – era impossível salvar meu progresso em jogos mais longos…

Até que, naquele mesmo ano no qual consegui meu Game Boy Advance, nossa família trocou de PC. Agora, tínhamos um Windows XP, Pentium IV e um HD de 80GB. Ainda é pouco comparado aos tempos de hoje, mas foi um salto de 40x de armazenamento. Não havia mais “desculpas”, nosso novo computador tinha espaço e processamento mais do que suficiente para jogos.

Assim como encontrei sites de dicas e guias de jogos, não demorou muito até eu encontrar os de emuladores e roms. Super Nintendo, Mega Drive, Game Boy… Além do próprio Oracle of Seasons, foi a oportunidade para explorar jogos que estavam longe demais das prateleiras e do alcance financeiro, além de finalmente conseguir terminar os jogos que eram difíceis demais ou não tinha o tempo hábil pois eram alugados ou emprestado e havia prazo para devolvê-los.

Novamente, quero deixar mais um SALVE ao pessoal do roxdownloads, emulabr e coolrom onde quer que estejam!

Conclusão

Mesmo com suas limitações gráficas e pouca popularidade, eu vou defender a grandeza do Oracle of Seasons & Ages. São ótimos exemplos de quando qualidade técnica e apego emocional estão perfeitamente equilibrados. Os dois jogos envelheceram como vinho e continuam divertidos de jogar até hoje.

The Legend of Zelda é uma franquia que esteve presente em momentos-chave do meu desenvolvimento como pessoa. Se, hoje, na vida adulta, eu sou capaz de guardar dinheiro pensando em projetos a longo prazo, foi porque passei meses, talvez anos, pacientemente guardando recursos até finalmente adquirir um produto dos sonhos.

E quanto a vocês? Quais jogos literalmente fizeram parte da sua história? Quais jogos da sua vida encontraram esse equilíbrio perfeito entre qualidade e apego?

Até a próxima! o/

Artigo publicado originalmente por CxGx no blog Hey, Yuuko! em 28/09/2016, com algumas adaptações.

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Yuuko e CG são taverneiros que aprontam altas confusões com seus gatos em diversos gêneros de jogos e artes em geral, além de gostarem de falar sobre isso junto a outros aventureiros nessses multiversos.

Comment (01)

  • Bill

    07 jul, 2026 11:15

    Excelente reflexão.

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